Saudades do Jornal do Brasil
- jornalatipo
- 9 de ago. de 2021
- 5 min de leitura
Nunca gostei muito de estudar, mas desde a adolescência adoro ler. Estudar, mesmo, só Geografia, o tempo todo, História, quando algum tema me interessava, e Biologia, somente se uma pobre rã fosse estripada nas aulas práticas. O resto, e não era pouca coisa, apenas o suficiente para passar raspando, geralmente com algum sofrimento.
O vício da leitura começou aos poucos, e posso atribuí-lo em grande parte à minha tia Olinda, professora, sempre risonha, com uma cara de moleca que preservou pela vida adentro. Ela, ao voltar do trabalho, sempre trazia o Jornal do Brasil embaixo do braço e o largava numa mesa da casa de minha avó. Ficava ansioso à espera de que ela terminasse a leitura, porque depois era a minha vez. Os deveres de casa ficavam para a tarde, talvez fossem feitos à noite, quem sabe na manhã seguinte, para finalmente serem copiados do colega mais próximo quando chegasse à escola.
Eu tenho certeza de que Olinda cumpria esse ritual de forma intencional. Sempre gostou muito de mim, e invariavelmente me incentivava à leitura do JB e dos livros que trazia. Quando passei no vestibular para Geografia na UFRJ ela me presenteou com um globo que me faz companhia até hoje.
Logo após ela se retirar para o quarto, eu, como um gato a caminho da tigela de comida, me dirigia à referida mesa, porque sabia que o JB estava lá, oferecido. Corria para pegá-lo antes que algum aventureiro o fizesse. Às vezes encontrava Mimi, nossa gata de estimação, deitada em cima de suas páginas, para se aquecer e para se libertar um pouco dos excessivos carinhos de minha mãe. Não havia simpatia pelos animais que me impedisse de expulsá-la a tapas da confortável cama em que transformara o meu esperado JB.
E lá estava ele me aguardando, mais ou menos arrumado, mais ou menos lido, porque minha tia não se interessava por todos os seus detalhes. Pelo que pude apurar, o futebol saía inalterado de suas leituras. A economia, ilesa. A política, contornada. Os classificados, virgens. Em compensação, o Caderno B com suas inesquecíveis páginas de cultura havia sido assediado até o limite, e eu sempre o encontrava em péssimo estado, maculado inclusive por respingos de café, manchas de manteiga e resquícios do que tinha sido um pão.
Eu nunca fui seletivo: sempre li o JB da primeira à última página, não excluindo sequer o obituário e a previsão do tempo. Não ignorava os mexericos sociais e as notícias da realeza inglesa, porque os lia para minha avó, que se deleitava com as aventuras da soberana Elizabeth II. Vasculhava as cotações da Bolsa, mesmo sem nada entender daqueles índices. Conferia obscuras matérias sobre temas católicos ou hagiografias sobre a Condessa Pereira Carneiro, a aristocrática e cristã dona do jornal. Por fim, é claro, não perdia os quadrinhos.

Não que tudo fosse perfeito. Sempre achei a coluna de política de Carlos Castello Branco, logo na segunda página, muito chata, cheia de sussurros e boatos, numa época em que a política nacional era lotada de boatos e sussurros originários de quartéis e palácios entrincheirados. Em compensação, meu deus, vale a pena não ser mais jovem, desde que tendo passado a adolescência na companhia de Carlinhos Oliveira e de Carlos Drummond de Andrade. Como pôde um jornal concentrar tanta inteligência e tanta sensibilidade, em tempos tão brutos? É possível esquecer o Triste Horizonte, de 1976, com Drummond a lamentar o extermínio das árvores do centro da capital mineira, verde na sua juventude?
Não voltarei para ver o que não merece ser visto
O que merece ser esquecido, se revogado não pode ser
Não o passado cor-de-cores fantásticas
Cidade aberta aos estudantes do mundo inteiro, inclusive Alagoas,
'maravilha de milhares de brilhos vidrilhos'
mariodeandramente celebrada.
Não Mário, Belo Horizonte não era uma tolice como as outras.
Era uma província saudável, de carnes leves pesseguíneas.
Era um remanso, era um remanso
para fugir às partes agitadas do Brasil,
sorrindo do Rio de Janeiro e de São Paulo: tão prafentex, as duas!
e nós lá: macio-amesendados
na calma e na verde brisa irônica...
Parece mesmo que Drummond nunca mais retornou a Belo Horizonte. Levava a palavra a sério, assim como o jornal em que escrevia.
Pois o JB era, em primeiro lugar, um jornal muito sério. Dele se dizia que seria o único que noticiaria o fim do mundo sem pôr uma exclamação no final. Os editoriais, conforme fui percebendo ao longo do tempo, eram absolutamente conservadores e irritantes, se posicionando, por exemplo, contra a legalização do divórcio ou chamando as Ilhas Malvinas de Falklands, ou seja, apoiando sua posse pela Inglaterra durante o conflito com a Argentina.
Mas os posicionamentos indefensáveis se limitavam aos editoriais. Mesmo para um adolescente, era possível perceber a diferença entre a postura oficial do jornal e a liberdade de ação de seus jornalistas e cronistas.
Eu gostava particularmente da editoria de política internacional. Estando a política nacional numa fase muito magra, havia quatro ou cinco encorpadas páginas dedicadas aos assuntos estrangeiros.
Acompanhei o dia a dia da Guerra de 1973 entre os países árabes e Israel pelo JB. Tomei conhecimento do início dos conflitos de manhã bem cedo na aula de matemática, quando Oto, o professor, um negro veterano da Segunda Guerra Mundial que nos matava de medo com suas equações argentinas, disse que dessa vez Israel tinha iniciado uma guerra, mas que perderia. Otto não escondia seus pendores esquerdistas, e, quando nos deixou, correram grandes boatos sobre o seu sumiço. Naquele dia, não quis nem ficar para o papo habitual que sempre rolava depois das aulas. Fiz a jato o caminho de volta para casa, louco para saber das novidades da guerra. Acompanhei a cada dia as ofensivas e recuos, passando o dedo em cima dos mapas, conferia as baixas de cada lado, as declarações dos líderes, e isso ocorreu durante todo o tempo em que a guerra durou, e, também, nas negociações de paz posteriores.
Em uma primeira manifestação de simpatias esquerdistas, me senti contemplado com as cenas dos americanos saindo corridos do Vietnã. Me espantei com a Revolução islâmica no Irã e, mais uma vez, passei os dedos pelos mapas pequeninos da Nicarágua e de El Salvador, ansioso para conferir os territórios conquistados pelos guerrilheiros de ambos os países. Estava sempre atento aos movimentos de uma Europa ainda em plena Guerra Fria. Habituado ao Brasil, achava espantoso ver o Partido Comunista Italiano ter 30% dos votos dos cidadãos.
O auge de minha paixão pelo JB ocorreu durante os anos da adolescência. Quando cheguei à faculdade, os compromissos com as incontornáveis leituras, com a militância política e com os bicos que fazia para arranjar uns trocados foram me tirando o tempo diário de sua leitura, que passou a se concentrar nos sábados e domingos. Depois, aos poucos, a relação foi esfriando e se tornando cada vez mais rarefeita.
Nunca senti nada de semelhante em relação aos outros jornais que porventura adentravam em minha casa. Meu pai gostava de O Dia, que tinha até uma coluna engraçada, o Avesso da Vida, e, de vez em quando, lia o Jornal dos Sports, com sua capa cor-de-rosa que sujava as mãos, o sofá, sujava tudo. Eu lia a ambos de forma protocolar, vasculhando, em poucos minutos, suas páginas com fotos de cadáveres ou de gols. Era cumprimento de tabela. O JB não, este me dava amor, e era retribuído por igual.
O JB foi minguando, minguando, até desaparecer por completo. Adulto, tentei manter o hábito de ler um jornal, assinando a Folha de São Paulo e, mais tarde, O Globo. Não senti nada em especial por ambos. A primeira, por sua postura sempre arrogante, de se ver como o centro de um jornalismo inteligente, formador de opinião, e o que é pior, sendo excessivamente paulista. Namorei um tempo, mas logo pulei fora. O segundo, por uma antipatia persistente e por uma desconfiança bem fundamentada com o conteúdo de suas notícias. Eu já o lia querendo criticar. Não havia confiança, e o mandei às favas.
Em 2017, para minha surpresa, o JB apareceria novamente nas bancas. Despertou meu entusiasmo e por algum tempo a poltrona de minha casa voltou a ver páginas espalhadas por entre os travesseiros. Mas o sonho, magro por sinal, pouco durou. Foi a última vez. Depois disso, desisti definitivamente do maior dos meus hábitos da adolescência.





Maravilhoso texto.