O Brasil sem ENEM
- jornalatipo
- 14 de ago. de 2021
- 3 min de leitura
A defesa de “uma universidade pública, gratuita e de qualidade” é um lugar comum nos meios progressistas. Esses discursos, repetidos exaustivamente, muitas vezes deixam de lado uma questão crucial para uma educação realmente universal: o fato de que há um filtro rigoroso que impede o acesso de milhões de brasileiros ao ensino superior, que é o ENEM, assim como qualquer outro tipo de vestibular. Apesar das recentes políticas de cotas terem ajudado na popularização da universidade, ainda há um caminho muito longo pela frente. Para que haja uma universidade para todos, não deveria haver vestibulares de nenhum tipo.
A proposta de extinção dos vestibulares pode soar impossível, mas há experiências semelhantes não tão longe do nosso país. A Argentina garante o acesso irrestrito de seus cidadãos às universidades públicas. Até mesmo estrangeiros não precisam de nada mais do que um certificado de conclusão do ensino médio para ingressarem no ensino superior argentino, motivo de milhares de estudantes brasileiros estudarem medicina lá. Há defeitos nessa experiência, como o desincentivo aos alunos da educação básica a se prepararem para uma faculdade. Desse modo, o índice de evasão é altíssimo. Além disso, o Brasil é um país de maiores proporções territoriais e populacionais e, portanto, exige maior estrutura para que haja uma universidade de acesso irrestrito.
Ao menos, pode haver uma aproximação desse modelo ideal que é a ausência de vestibulares. O investimento para que haja mais vagas no ensino superior público combinado a formas alternativas de ingresso que não o vestibular pode ajudar muito nesse sentido. Por exemplo, é cada vez mais comum que estudantes secundaristas com bom desempenho em olimpíadas de conhecimento consigam entrar em universidades públicas sem fazer o ENEM. É importante que haja cada vez mais iniciativas desse tipo, incluindo também jovens com interesses em áreas negligenciadas, como as artes e os esportes, garantindo a eles acesso à universidade. O problema não é apenas que haja um obstáculo para que o estudante chegue à faculdade, mas também que este obstáculo seja um exame único que não se atenta às diferentes inteligências de cada um.
Outro ponto que vale a pena ser pensado é como o ENEM molda o ensino básico. Atualmente, o ensino médio funciona como um preparatório para vestibular, e há colégios que explicitamente se assumem como tal na rede particular. Essa pressão surge muitas vezes ainda no ensino fundamental! Em uma utopia (não no sentido de uma conjuntura impossível, mas sim de algo ainda distante do nosso estado atual) sem vestibular, ou em um cenário próximo a isso, haveria um espaço muito maior para a criatividade na escola, tanto para o corpo discente quanto docente. Seria mais fácil a implementação de aulas extracurriculares de assuntos e interesses diversos, englobando as potencialidades de todos os alunos, sem que houvesse pressão para ensinar apenas o conteúdo presente no ENEM. Não somente isso, como também os estudantes seriam poupados, pelo menos em parte, do desgaste psicoemocional que tanto enfrentam os vestibulandos, que eventualmente levam a transtornos de ansiedade e estresse.
Em um momento de retrocesso na educação, com o "novo" ensino médio e o ministro da educação dizendo que a universidade deveria ser para poucos, certas ideias podem parecer inatingíveis. Mesmo que uma universidade de fato para todos seja uma meta um tanto longínqua, é sempre importante estabelecermos estratégias a longo prazo, e a pequeno prazo fazermos o possível para continuar no caminho. A crise da educação é muito mais complexa do que uma questão de múltipla escolha.





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