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“LIBERDADE PARA OS HOMOSSEXUAIS!”: Reflexões sobre o cinema de R.W. Fassbinder e Rosa von Praunheim

  • jornalatipo
  • 29 de jun. de 2021
  • 3 min de leitura

É complicado, talvez, dizer que o cinema de Rainer Werner Fassbinder esteja diretamente ligado à luta LGBT. Embora sempre tenha trazido a questão da homossexualidade em suas obras, sempre como um grande provocador, com enorme influência na sua autobiografia (Fassbinder sempre deixou claro que era bissexual e sempre quis impor a questão da sexualidade em sua obra), não dá para dizer que a ferramenta questionadora direta da luta venha tão presente. Contudo, não se nega a importância do seu cinema e a relevância para a luta e para um cinema cada vez mais livre.


Rainer Werner Fassbinder foi um dos principais nomes do dito Novo Cinema Alemão, juntamente a outros grandes autores como Werner Herzog e Wim Wenders. Foi um movimento de jovens cineastas com sede por um novo cinema no país, este que se encontrava numa situação crítica desde o término da Segunda Guerra. Já em voga, Fassbinder tornou-se um dos principais autores do movimento, como uma máquina de produção, chegando a fazer três filmes por ano num intervalo de 100 dias. Uma carreira precoce que, infelizmente, terminou precoce, com seu falecimento aos 37 anos, em 1982. Deixou uma obra extensa, e sobretudo, riquíssima, se tornando não apenas um dos mais notáveis cineastas alemães de seu tempo, mas um dos autores mais interessantes e importantes da Europa nesse curto intervalo entre o Cinema Moderno e Contemporâneo. Conhecido como um grande provocador, sempre querendo atordoar a sociedade alemã, trazendo grandes tabus para a época. E um dos principais, sempre foi a homossexualidade. Como disse um pouco mais acima no texto, embora o cinema de Rainer não seja exatamente ligado à luta LGBT, suas obras sempre trazem questões muito importantes, e talvez uma das principais seja a falta de conscientização. Quando vemos O Direito do Mais Forte, por exemplo, considerado como uma de suas obras mais concisas, ao acompanharmos Franz “Fox” (interpretado pelo próprio diretor), um jovem trabalhador alemão homossexual, vemos sempre uma ingenuidade na sua representação. Ao perder seu emprego num circo, e logo em seguida ganhar na loteria, o protagonista se vê adentrando no mundo burguês. Agora casado, Fox se torna a própria vítima do mundo em que adentrou, e dos próprios homossexuais nele presentes. Ao invés do aspecto de união e luta, Fassbinder opta por mostrar uma manifestação de opressão, as ressonâncias de classe. Franz é visto apenas como uma máquina de dinheiro e um objeto sexual para o seu acompanhante falido Eugen. Nada mais. É a contaminação do liberalismo.


Desde o seu princípio, o longa já determina o fim de seu personagem. Fox se suicida, em meio a uma estação de trem, sozinho, sem a oportunidade de se juntar a uma luta, ou melhor, sem saber o que é essa luta. O filme acaba por mostrar uma carência pela representatividade. Vários, assim como Franz, morreram sem ter a chance de conhecer a causa LGBT, de conhecer outros homossexuais que se unem, que se fazem representar, e não se fragmentam entre si, como o filme demonstra. Acaba por ser um retrato muito duro, mas que evidencia uma realidade muito crua. Fox vivia envolto de iguais, mas pela contaminação do liberalismo e pela falta de várias questões, o desconhecer da sua própria luta, tanto por sua homossexualidade, como de classe, acaba se tornando o oprimido dos oprimidos. Alguns anos antes do lançamento da obra de Fassbinder, Rosa von Praunheim, outro cineasta um tanto particular do Novo Cinema Alemão (ainda que, infelizmente, seja pouco visto), fez um filme que é quase uma antítese da obra de Rainer, Não É o Homossexual Que É Perverso, Mas a Situação Em Que Ele Vive. Abordando algumas ideias que são semelhantes à obra de Fassbinder (a questão do homossexual alemão burguês, por exemplo), Rosa faz um filme de luta. Um filme representativo. Embora ainda tenha uma visão tanto quanto pessimista, ao demonstrar a questão da carência de representatividade e da falta do coletivo, é um filme que tem uma resolução muito esperançosa. O interessante - vale ressaltar - é o modelo que Rosa optou por registrar a sua obra. É um documentário, um filme-ensaio onde todas as falas são dubladas e todas as cenas encenadas, sempre tendo um narrador relatando os acontecimentos da tela, enquanto o outro fala sobre a situação do homossexual jovem nos anos setenta. Acaba que essa experimentação direta do diretor, entrelaçada a um dinamismo muito presente, impulsiona a sua mensagem. É esse relato potente, que, em seu fim, leva uma ideia muito otimista, abrindo espaço para uma liberdade ainda maior nos anos seguintes. A frase que finaliza o longa denota a força de representação que a comunidade iria tomar ali em diante: “Tenha orgulho de sua homossexualidade! Saiam dos banheiros! Tomem as ruas! Liberdade para os homossexuais!”. O fim de uma era de silêncio.



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